terça-feira, 8 de novembro de 2016

Chineses, coreanos e a língua do P

Quando a gente muda pra um país com outro idioma, a gente se sente como que tendo uma língua única, exclusiva, e se sente muito mais à vontade para expor um montes de coisas que não o faria em público em sua terra natal. Coisas como "nossa, que fedido!" ou "caramba, não tem como ser mais rápido?" que muitas vezes as pessoas pensam mas não tem coragem de verbalizar porque acham que vão escandalizar ou ofender, e acabam guardando pra si mesmas, mas que, em uma terra de língua estranha, acabam sendo verbalizadas, já que o primeiro pensamento é "ninguém vai entender mesmo..."
O grande lance é que hoje em dia existem tantas pessoas rodando o mundo de tantas formas, por tantos motivos, e em tantas ocasiões que não tem como garantir que a pessoa ao seu lado não fala a sua língua. Ou seja, no fim das contas, ao invés da gente estar mesmo falando uma espécie de língua secreta, a gente está mesmo é se acabando e se achando super importante falando algo como a infantil "língua do P". Aquela mesmo, que a gente achava que era super secreta e que só a gente entendia, mas que no fim todo mundo estava entendendo e fingia que não só pra não magoar os nossos sentimentos ingênuos sobre o nosso "segredo".
O grande problema disso é que, em primeiro lugar, somos adultos, e faz sentido agirmos como tal. E ser adulto é, em princípio, assumir uma postura madura de que é necessário cuidar para que os outros sintam-se acolhidos pela sua presença, e não repelidos. Claro que esse é um conceito meu que está relacionado a procurar expressar o amor de Cristo. Não podemos julgar os outros, e na verdade, todo cristão tem por missão geral incluir o próximo no amor do Pai, e isso só pode acontecer quando a pessoa se sente acolhida, amada de verdade, e não é falando um outro idioma perto dela que isso vai acontecer. Isso não pode ser confundido com procurar agradar a qualquer custo, porque isso é outro papo, mas definitivamente passa por se preocupar com o sentimento alheio em relação aos nossos usos e costumes, nossos hábitos e nossa cultura, sem deixar de lado nossos princípios.
Um parêntese: quando fui a Londres pela primeira vez, eu não tinha compreensão de que falava inglês de modo tão desembaraçado quanto falo, e por isso era muito tímida, e tudo o que eu tinha a dizer eu pedia pra pessoa ao meu lado (por alguns dias, até que eu cansei e tentei por mim mesma, e no fim foi a melhor coisa que fiz). Nesse tempo em que eu dependia de outros, eu comecei a me lembrar daqueles chineses e coreanos que estão espalhados por São Paulo, e que falam a sua própria língua, independente de quem esteja do lado. Acho que isso traz uma segurança de se sentir livre, e ao mesmo tempo, o conforto de saber que não vai dizer nada que não queria para quem é mais próximo de você. Por outro lado, soa muito rude da parte deles, e gera sempre uma desconfiança que não ajuda em nada.
Entendendo os dois lados, claro que fico entre a cruz e a caldeirinha, mas sendo bem honesta comigo mesma, e com o que viemos fazer aqui, precisamos a todo custo falar apenas em italiano pelas ruas. Não adianta usar desculpas: elas só atrapalham e adiam aquilo que nos propusemos a fazer, que é anunciar (portanto, falar) as Boas Novas do Senhor!

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