domingo, 6 de novembro de 2016

Um mês de Italia - primeiro balanço

E de repente, passou um mês. Ok, eu sei que não escrevi tudo na ordem, mas decidi que é melhor escrever mesmo fora de ordem do que simplesmente deixar passar. Aliás, eu contei aqui que nos últimos dias não tenho mantido a ordem pra ser honesta com quem venha a ler, mas é o tipo da coisa que se eu não conto, pouca gente (ou quase ninguém) vai notar, e de verdade, eu poderia cumprir meu papel assim. Mas, isso nos leva ao primeiro aprendizado do período.
Uma das coisas que vejo como fundamentais pra que isso funcione é o fato de ter alguém pra prestar contas. Viver no exterior, morar "sozinha", não ter pessoas ao redor em situações fundamentais, nos dá uma liberdade que, pra quem nunca teve, pode ser benção ou maldição. Exagero? Talvez, mas pense nas vezes em que você, morando sozinho, decidiu não ir ao supermercado simplesmente porque podia não ir. E lembre-se quantas dessas vezes algumas horas depois você se arrependeu da decisão simplesmente porque lembrou em um momento prático de que seu papel higiênico acabou, e que ir ao mercado não era apenas um passeio para adquirir gordices... ter a quem prestar contas (claro, não do papel higiênico mas em geral) pode ajudar demais a pessoa a se organizar, se forçando a ser alguém que sempre considera um outro alguém na sua rotina, o que faz com que sua visão saia do seu próprio umbigo e as coisas funcionem melhor pra todo mundo.
Outra coisa: o italiano (brasileiro que mora na Italia costuma ter o mesmo hábito) gosta de reclamar e ponto. Não importa se você tem motivos ou não, o barato é reclamar de alguma coisa. Se não tiver nada, o italiano é capaz de reclamar (mesmo que discretamente) da sua sombra, ou de que esqueceu de algo, ou simplesmente de qualquer nuance que ele mesmo possa considerar pra reclamar. Isso é uma escolha cultural, e não é reclamando do hábito deles de reclamar que vamos mudar alguma coisa. Portanto, identificar isso e sempre levar em oração a Deus é fundamental para não se tornar também alguém que fica preso em reclamações constantes.
Uma coisa que assusta (pra mim pelo menos) é como a cidade muda com as estações. No verão, o sol nasce muito cedo e demora loucamente para se por (o que me traz uma alegria imensurável no coração), mas vai avançando o outono, e você percebe que 17:30 já está tão escuro em Milano quanto estaria às 22 em São Paulo. Estranhíssimo, e é algo que, pra mim, é o mais difícil até o momento de lidar com elegância. Isso sempre me confunde o cérebro, e eu acabo achando que está muito mais tarde do que de fato está. Então me meto numa atividade no computador, e quando vou ver, está muito mais tarde do que eu gostaria. Com isso ainda não aprendi a lidar do jeito adequado. Veremos no balanço do próximo mês.
De resto, por enquanto, a chuva já não me incomoda como me incomodava em São Paulo (e mesmo não tendo carro uso a capa de chuva e minha botinha própria para a neve e fico sequinha e feliz) e o frio idem. Isso realmente é uma vitória e tanto pra quem tinha vontade de chorar só de ouvir que a temperatura ia ser menor do que 17 graus em Sampa. Na verdade, pra mim uma enorme conquista!
Morar em um lugar com pessoas desconhecidas tem seus desafios, mas percebo também que quando Deus nos coloca num contexto, a paz interior de estar no lugar certo acaba substituindo o restante, e mesmo os desconfortos são dribláveis.
Amo uma série de coisas da culinária aqui, mas senti falta de tapioca, até que achei um lugar pra comprar e descobri que por aqui é quase impossível não encontrar algo que se queira muito de verdade, e com isso também foi mais simples fazer adaptação da alimentação. Isso e o fato de que achei com menos dificuldade itens sem gluten para comprar no mercado, o que realmente tem me ajudado muito.
Lidar com a falta da família e de alguns queridos é uma constante, e é algo que não pode se tornar um fardo. Ao mesmo tempo que é preciso queimar a ponte com o passado (no sentido de olhar daqui em diante apenas) tem certas notícias que vem do Brasil que abalam, e é essencial saber entregá-las a Deus e buscar ajuda com pessoas confiáveis pra lidar de modo sereno e firme, deixando na posição correta tudo o que acontece aqui e lá.
Por fim, os dias aqui passam rápido demais, praticamente voam, e esse é um desafio tenso porque, quando se vai ver, já passou o dia, já passou a hora, e o resultado prático pode ser frustrante. Aprender a lidar com o tempo é fundamental e com certeza fará toda a diferença nesse processo daqui em diante. Ainda tenho muito a aprender nesse sentido, mas confio que Deus trará o necessário para que tudo corra bem.
Sendo assim, os primeiros 30 dias pra mim foram excepcionais. Saldo final: fora a coluna cervical machucada, só ganhos, seja pelas alegrias, seja pelos aprendizados. Agradeço a Deus por esse primeiro mês de muitos, pelo primeiro mês de uma nova etapa da minha vida, graças a Deus!

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