terça-feira, 8 de novembro de 2016

O preço da ignorância

Caramba, como se paga um preço alto por estar em um novo contexto e muitas vezes não ter a quem perguntar certas coisas, não? Como, por exemplo, é caro o tempo gasto, o esforço dispendido, o dinheiro investido em algo que é necessário mas que, por não sabermos a forma certa, acabamos tendo que sempre dar algo mais (correndo o risco de não ter exatamente o desejado).
Hoje, por exemplo, chegou um cara novo na casa. Porque sei que ele acabou de chegar do Brasil e conversando soube que ele não fala o italiano, comecei a conversar com ele e contar um pouco da vida por aqui. Fiz um lanche pra nós e fomos falando sobre o que eu já vi que funciona, e o que não é tão simples (embora pareça inicialmente ridículo) e, de repente, ele abre a garrafinha de água que comprou e nota que ela tem água frizzante (que é o nome em italiano da "água com gás"). O lance é que ele detesta essa água e comprou uma dúzia delas... imagina a alegria dele ao ver que esse primeiro deslize por ignorar o idioma é um prenúncio do que virá nos próximos meses...
Para consolá-lo, compartilhei que hoje tive que torcer as roupas que lavei na mão, já que no ciclo normal de lavagem elas não ficaram bem centrifugadas. Mas aí você me pergunta: por que raios você não tentou centrifugar de novo? Pois é... eu tentei, e pelo que vi nas "instruções" da lavatrice (máquina de lavar) tinha mesmo um modo só pra isso, mas pergunta se ele funcionou? Perguntei então a uma pessoa da equipe pelo whatsapp se ela sabia como fazer... e a resposta foi que ela se compadecia muito da minha próxima tarefa, que seria torcer as roupas (que incluíam um cobertor) na mão. Ou seja, eu mesma paguei pela ignorância de não saber usar o equipamento e não ter a quem perguntar (que soubesse).
Muitas vezes também isso acaba acontecendo porque nos limitamos por orgulho, por imprudência ou mesmo por falta de oportunidade, e isso nos complica a vida por demais. Por exemplo, hoje dando as primeiras instruções sobre como algumas coisas funcionam, sobre que aplicativos no celular podem ser úteis, como pegar metrô, como comprar comida, que tipo de mercado funciona melhor ou pior, vi o quanto claramente já aprendi, mas também vi o quanto tem um custo abrir caminho para outros. Sim, o preço é mais alto, mas a satisfação é proporcional, e eu fico feliz de ver que posso ajudar algumas pessoas com o pouco que tenho aprendido por aqui. Aliás, espero com esses relatos ajudar muito mais gente de um modo mais prático, já que pra algumas coisas a desinformação impera por aqui.
Por exemplo, hoje contei pro rapaz que por aqui o povo não joga papel higiênico na lixeira, deixando-a apenas para artigos como absorventes. Ele ficou meio chocado porque não consegue entender como o povo prefere lidar com canos entupidos do que com cestinhos cheios de papel (nojento, é verdade, mas em uma proporção muito menor do que o que os esgotos podem proporcionar quando entupidos). A conversa foi embora, e foi interessante ver a percepção de quem está chegando agora. E eu entendi que, uma vez estando aqui, preciso ajudar outros que ainda estão por vir, e que mais do que nunca, é importante me preparar para receber outros, sejam visitantes, sejam futuros moradores, sejam apenas italianos que fiquem por aqui por pouco tempo. Dessa forma, espero poder expressar o cuidado de Jesus com aqueles que, perdidos, nem sempre tem o necessário a dar para pagar esse preço tão alto que a ignorância cobra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário