Hoje, mais uma vez, fui com a assessora na comune. Desta vez, fomos dar entrada no pedido de reconhecimento da minha cidadania italiana, e claro, foi dia de esperar, esperar e esperar... mas, valeu muito a pena!
Em primeiro lugar, devo dizer mais uma vez que de fato o povo por aqui é mesmo meio atrapalhado no serviço público. Vê-se que ir a um órgão e ter que voltar mais de uma vez (ou várias) para tentar concluir o mesmo processo, ou ainda ver um funcionário público reclamando do trabalho do outro (e ambos tendo razão no que foi feito) é algo relativamente comum. Aliás, é um enorme desafio para nós não nos envolvermos nesse espírito de reclamação e abençoarmos à pessoa que nos atende, e sorrir, e agradecer a Deus por todo o tempo gasto em cada lugar, cada órgão, cada situação, porque afinal de contas, quem manda aqui é o Espírito Santo, e não nós mesmos (pelo menos deveria, não é correto?).
Em segundo lugar, é fundamental comemorar cada etapa vencida nesse processo longo, demorado, cansativo e cheio de questões e para muitos, de reviravolta. No meu caso, graças a Deus que até tem sido bastante tranquilo, e mesmo com todas as questões envolvidas, o Senhor tem demonstrado Seu cuidado em todo o tempo.
A ida ao comune é, por si só, uma aventura. Isso porque para saber onde fica cada coisa, e para acertar o horário de funcionamento das coisas, e saber como raios chegar e dizer a coisa certa na hora certa.. confrsso que exige um tipo de conhecimento que estando no Brasil não é possível obter-se. Por isso até, muitos (ou quase todos os brasileiros) vem a Itália e recorrem aos assessores, que é um tipo de serviço que não é exatamente legal, mas também não parece ser condenável, já que sabe-se largamente por aqui que isso é feito, e claro, muitas vezes, sem esse serviço, o brasileiro nunca teria sua cidadania reconhecida, a começar porque simplesmente não é tão simples conhecer um italiano "davvero" que te ajude ocm as coisas todas, menos ainda um que te assine um documento dizendo que você mora na casa dele (o que é absolutamente necessário para dar entrada no processo de cidadania). Aliás, quem não é cidadão europeu não consegue alugar um lugar para morar, a não ser que seja via Airbnb (método seguro mas caro que permite que sejam escolhidos imóveis ou apenas o que eles chamam de "posto letto" pela internet, antes mesmo de sair de casa no Brasil, mas que cobra por toda a estrutura e só pode ser pago via cartão de crédito), e esse sistema não te dá a condição de receber do proprietário a assinatura dos documentos corretos dizendo que você é residente no país. Então, fica aquela coisa: preciso da residência para ser cidadã, mas só consigo ser reconhecida como cidadã se tenho residência... e com isso, o imigrante é meio que jogado nas mãos de processos paralelos, para não dizer que em alguns casos são mesmo ilegais, e fazem com que realmente não se tenha a chance que no Brasil o imigrante possui. Provável que por isso dizem que o Brasil é mesmo uma mãe para todos, e infelizmente, hoje penso que é uma mãe desprezada, já que seus filhos cuidam tão mal dela... (mas isso é papo para outro momento).
Algumas coisas eu percebi que fizeram diferença nessa minha visita: a primeira foi que eu levei alguém comigo que fala italiano (não exatamente fluente mas sabe fazer tudo o que se faz necessário) e isso ajudou muito, já que não faltou informação e em nenhum momento fiquei sem saber o rumo das coisas; a segunda foi que eu mesma conheço um tanto razoável da lingua local e, mesmo não falando muito, consigo até me fazer entender, já que muitas das coisas que a moça do comune conversou foi comigo mesma, e foi em italiano, o que passou a ela segurança; e a terceira foi que ela fez um comentário que, na hora, me pareceu bobo, mas que depois, ligando com o que eu já comecei a ver da mentalidade do italiano, fez com que ela me tratasse de modo mais prestativo: ao ver meu passaporte, ela reparou que eu tenho alguns carimbos, e comentou que eu viajo muito... isso pra ela, mais do que um comentário vazio significava que ela estava ali dizendo que eu sou alguém que vou e volto, tenho passagem sem problemas por fronteiras, e não sou uma ignorante qualquer, e que aos olhos dela não sou uma simples imigrante que veio arriscar a vida num lance maluco. A sensação que deu foi que até aquele momento ela era como uma estadunidense que me olhava como que para aqueles mexicanos que arriscam a vida a atravessar para os Estados Unidos através dos coiotes, correndo o risco de morrer para buscar uma vida melhor, e a partir dali ela passou a ver, quase que instantaneamente, uma francesa eu sua sala: alguém que não é de seu país, mas que não precisa daquele visto para sobreviver ou ter condições de criar algo para o futuro. E essa mudança de postura me impressionou porque ela é compatível com o que tenho visto sobre os valores que regem os italianos (talvez até os europeus em geral) que é o apego à cultura, ao sucesso profissional, ao status, ao dinheiro e à independência.
Apesar de tudo isso, a vida na Europa tem sim o seu lado glamouroso que é acessível a todos: para comemorar que a entrada dos documentos foi feita, fomos tomar um cappuccino em um lugar chamado "Rinascente", que é uma loja das melhores marcas do mundo, e que no topo tem um espaço de alimentação com coisas lindíssimas e sofisticadas... e o cappuccino custou dois euros (o que equivale a um café na Starbucks em São Paulo, ou menos), mas com a diferença de estar ali no mesmo lugar que qualquer outro cidadão ou visitante, aproveitando o que a cidade tem de melhor.
E com isso, a vida na Itália segue: um dia de contar moedas, um dia de tomar café nos lugares elegantes... e com batalhas gigantescas não só pelas vidas que Deus nos coloca para cuidar, mas pela nossa própria, contra a fácil corrupção do nosso coração enganável e volúvel.
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