quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Ospedale, omeprazolo, puntura, attesa e medichi di base

Pois é, o que ontem era apenas um desconforto intenso hoje passou a ser praticamente insuportável. Comi pouco, e o pouco que comi vomitei, e passei o dia inteiro na cama, principalmente porque a dor era tanta (e depois a fraqueza passou a ser tanta também) que honestamente eu não consegui fazer mais nada além de tentar me livrar daquilo tudo. Comer não ajudou, dormir não ajudou, e eu não quis tomar remédio por não ter muita convicção de se o problema era na cabeça ou no estômago (ou ambos). Sendo assim, resisti em casa até cerca de cinco da tarde, e quando não aguentei mais, pedi indicações pro pessoal da casa sobre o Ospedale (hospital) mais próximo.
Como aqui na casa mora um autista (que, diferente do significado em português, ele não tem problemas, mas era uma solução, já que esse termo significa "motorista") e um cuoco (sim, um cozinheiro, que ajudou porque ele mora há anos na cidade e conhecia bem aonde eu poderia ser atendida), pude contar com ajuda para ir ao local certo e de carro, sem ficar vagando pelos transportes da cidade até me localizar, ou cair num hospital pago, ou algum outro canto que eu não soubesse chegar, e isso foi benção!
Lá fomos nós no trânsito do fim de tarde pro ospedale, eu ameaçando vomitar até o que não tinha no estômago dentro do carro, e os dois fazendo o que podiam pra chegar o quanto antes ali. Fomos ao Ospedale San Paolo (não, eu não senti saudades de casa... fui ali porque escolheram para mim) e lá dei entrada às 18:00. Confesso que a minha expectativa inicial era de sair dali em umas duas horas no máximo... mas fui traída pela minha total paixão por este lugar. Demorei, ao todo, oito horas para deixar o hospital, e os exames que foram feitos foram apenas de toque, sem exames radiológicos ou de outra ordem.
Algumas coisas que aprendi: em primeiro lugar, o italiano (de qualquer classe social) e o estrangeiro que está legal no país tem direito a uma coisa chamada "tessera sanitária", que é o equivalente no Brasil a uma carteirinha do SUS, que dá direito a atendimento médico gratuito. Com ela, você pode (e em casos com o meu, deve) acionar o seu médico de base, que nada mais é do que um médico que fica responsável por acompanhar sua vida médica em geral, de modo que, exceto em casos de emergência grave, é ele quem vai te atender dando prosseguimento ao que ele já conhece do seu histórico e é quem vai te orientar como proceder com o seu mal estar, eventualmente te encaminhando a outros profissionais especializados. No fundo, é o que conhecemos no Brasil como "clínico geral", mas ao invés de irmos a um posto de saúde, ganhamos um médico específico que irá nos atender sempre. Confesso que o conceito me agrada, mas ainda não tenho direito a ele, e por isso da peleja.
Outro aprendizado é que, mesmo não podendo estar no país depois de 90 dias, o governo tem uma estrutura (lenta e meio precária, mas que funciona) para atender inclusive os ilegais e os turistas de graça, que foi o meu caso. Significa que, se eu tivesse essa necessidade e não pudesse ter documentos, não morreria sem atendimento na rua.
Outra descoberta foi que o tal codice fiscale que o consulado italiano emitiu pra mim no papel no Brasil serve sim, porque ele foi usado para o cadastro no hospital.
Uma coisa que me ocorreu e que realmente foi super importante: se você é alérgico como eu (no meu caso, a Omeprazol) é essencial saber o nome do remédio e o nome do princípio ativo ao qual você é alérgico em italiano, para evitar problemas em eventuais atendimentos médicos. Pode ser útil também saber o nome do remédio que você pode usar no lugar daquele que te provoca alergia.
Caso você tenha que ir ao hospital, leve o carregador do seu celular. Não é permitido que seu acompanhante esteja com você depois da passagem pela triagem (que costuma acontecer nos primeiros 15 minutos de atendimento no hospital). Isso significa que todo o restante do tempo ou você estará se comunicando com as pessoas pelo seu whatsapp ou você terá bastante tempo para conversar com as pessoas ao redor, orar, meditar, chorar (porque vontade dá de sobra quando você vê o tempo passando e nada mudando, e mais ainda quando você reclama da demora e o funcionário ali diz que o que você está esperando é pouco...).
Duas últimas dicas: conheça bem os seus parentes no Brasil, e pense muito bem antes de contar a eles que você está no hospital. Não estou, em hipótese alguma, sugerindo que você deixe de contar a eles que esteve no hospital, mas dependendo de quem é e como é o seu parente, avise-o apenas quando já tiver sido atendido e medicado para evitar ansiedade desnecessária, já que a distância impede uma ação mais efetiva mas ao mesmo tempo causa uma enorme sensação de impotência do outro lado, o que só piora o quadro geral. E por fim, avise SEMPRE a equipe em que você está inserido. Avise sua liderança ou pelo menos um ou dois irmãos com quem você tem mais proximidade e que você sabe que se encarregarão de avisar o restante. Além de se sentir cuidado com as mensagens e orações que todos farão (e eu senti isso na pele) você tem a certeza de que não está só e que poderá ser amparado caso tenha qualquer necessidade.

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