sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O tempo e o lugar de cada coisa

Uma coisa que eu ainda sofro por aqui (e confesso que sofri menos da outra vez mas agora está bem mais complicado de lidar) é o tempo que se demora pra ir de um lugar a outro. Aliás, conhecer a cidade é um privilégio que facilita demais a vida, mas é realmente para alguém que mora há mais tempo. Não adianta ter a ilusão de que em uma semana será possível acertar todas as coisas, e muitas vezes, vejo que os mapas ainda me atrapalham e eu perco tempo e o rumo pra chegar em alguns pontos.
Por exemplo: eu me propus a ir a uma escola de italiano para estrangeiros para me inscrever em um curso que começará na próxima semana e é gratuito. Como eu moro há menos de 200 metros do metrô e a escola fica a duas fermatas (nome italiano para estação) na mesma linha, eu não demoraria mais do que meia hora para chegar tranquilamente ao local... isso se eu não tivesse me perdido e, com a chuva, gastado muito mais tempo do que o previsto para chegar na tal estação, de modo que simplesmente não cheguei à tempo na escola e por isso não consegui me inscrever. Esse foi o único contratempo? Claro que não! Aqui na casa, quando posso, converso em italiano com outros brasileiros, mas hoje soube por um rapaz aqui que outro dos nossos colegas riu de nós porque estávamos falando um pouco do que sabíamos para treinar. Feliz ou infelizmente, esse moço com quem eu conversava deixou claro que essa é uma necessidade de todos e que, caso ele ache bobagem, é só ele não fazer isso. Eu confesso que fiquei feliz e chocada, porque o mesmo cara que criticou faz curso de italiano. Vai entender...
Mais uma coisa: aqui existem quatro linhas de metrô, e em alguns pontos uma interliga com a outra. Eu moro atualmente perto da linha amarela, e em algum ponto lá na frente cruzo com as demais (nesse sentido, ela parece com a linha amarela em Sampa, já que é a linha que liga todas as demais na cidade). O ponto é que, por exemplo, para sair daqui e ir a um lugar poucos quilômetros ao lado, tenho que pegar a linha amarela, depois a vermelha, depois a verde e fazer quase um quadrado completo, o que por mais rápido que seja demora muito mais do que se fosse possível ir reto. De novo, parecido com o que se enfrenta em Sampa para sair da Vila Mariana e ir ao Brooklin: se fosse possível descer direto, seria quase uma linha reta, mas como não dá, pega a linha verde, vai até a Consolação, entra na linha amarela, vai até Pinheiros e pega o trem... e assim a vida segue. Às vezes parece mesmo que continuo na terra da garoa.
Outra semelhança é a impressionante mudança que a cidade sofre quando chove. O trânsito nas ruas fica consideravelmente mais lento, alguns bueiros inundam, os metrôs ficam mais lentos e todo mundo acaba carregando seu guardachuva e eventualmente molhando o outro no metrô, trem ou ônibus. Sim, isso acontece em qualquer lugar (eu acho), mas foi curioso, por exemplo, ver como eu acabei ficando por 25 minutos na fila do mercado para passar pelo caixa. Não sei se foi troca de turno ou se o povo fica mais lento mesmo no frio, mas fiquei sinceramente abismada com a quantidade de gente no mercado às duas da tarde e com a quantidade (pequena) de funcionários nos caixas atendendo naquele momento. E isso honestamente eu via raramente acontecer no Patropi.
Existem diferenças: por aqui não existem motoboys, e nem grandes e largas avenidas como a 23 de maio ou as marginais Pinheiros ou Tietê. Por sinal, as motos são usadas, mas eu não vi ninguém fazendo entrega de moto para lugar algum. Outra coisa que vê-se até que bastante é ciclista (claro que com chuva isso muda completamente) e a bicicleta em uma cidade plana como Milano não é apenas um método de se exercitar, e sim um meio de transporte bem comum, usado inclusive por muitos senhores e senhoras bem vestidos. As ciclovias, quando existem, nem são tão cheias, até porque as pessoas parecem respeitar mais em relação ao espaço alheio, mas por outro lado, se você ficar no caminho de alguém, seja dirigindo um carro, seja na calçada, seja na ciclovia, tenha a certeza de que você ouvirá no mínimo um palavrão em alto e bom som, se não muitos, e vários serão acompanhados de gestos e você os entenderá quase que completamente, mesmo que tenha chegado no dia anterior na cidade. Linguagem universal é realmente algo muito forte.
O italiano em geral liga bastante para a aparência, então, é fácil identificar um estrangeiro (como eu): muitos casacos que não combinam entre si, a maioria deles inclusive esportivo, sapatos funcionais que não são tão bonitos assim, gorros e outros apetrechos que os locais se recusam a usar porque estraga o visual (e que eu não ligo a mínima, até porque eu já não ligava pra isso no Brasil, com esse frio aqui estou me preocupando menos ainda por agora). Mas, com o tempo, é importante começar a mudar a maneira de se vestir: eles infelizmente tem o mesmo hábito ruim do brasileiro de julgar os outros pelas roupas e sapatos, e isso pode fechar portas pra você de modo que você nem sonha que esteja acontecendo... sim, Deus abre portas conforme a vontade Dele, mas se até o apóstolo Paulo adequou seus costumes ao local em que estava para poder assemelhar-se ao povo e passar princípios, que dirá nós, pequenos ainda na fé e na caminhada? Boas estratégias precisam ser reconhecidas e imitadas. O outro lado da moeda é que, conforme a pessoa abraça essa necessidade, às vezes pende para o lado de valorizar demais tudo isso, e acaba perdendo o olhar de compaixão, misericórdia e graça que Deus procura e deseja dividir conosco a cada momento. Pra mim, inclusive, esse é um dos maiores desafios do missionário até o momento...

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